sexta-feira, 3 de março de 2017

Era realmente o céu...

Shirlene Álvares 

Beto era um menino esperto, mas muito desconfiado. Desconfiava de tudo, inclusive das verdades que as pessoas diziam, mas ele não duvidava de coisas simples, questionava sempre sobre assuntos profundos. Chegou a ganhar várias feiras de ciências na escola, porque sua curiosidade o fazia procurar, descobrir, experimentar.
As coisas mais banais, ditas pelos mais velhos deixava Beto curioso, queria sempre saber o porquê delas.
Um dia, ele começou a questionar o pai, a mãe de onde veio o ser humano. Beto ainda era novo, mas seus pais falavam sempre de Deus, da origem da vida. Esclareciam para Beto como Adão e Eva surgiram na Terra. Mas, Beto não acreditava em nada disso. Não acreditava no Paraíso, nem no céu.
Como quem duvida, ele duvidava mesmo, sempre dizia coisas do tipo:
- Tá! A mulher nasceu da costela de Adão? O céu é um paraíso. E como é esse paraíso? O inferno tem cheiro de enxofre? E tem fogo por todos os lados? Sei...
E ria de tudo! E como ele implicava com quem acreditasse nisso tudo. Beto gostava de provas. Pra tudo que lhe diziam, ele retrucava – quero provas!
Para Beto, acreditar na vida precisava ver a vida nascer, como no parto de seu irmão menor. Na escola, os professores já nem davam contar de responder as perguntas que fazia. E ele era um excelente aluno!
Quando sua mãe lhe disse que o maior segredo da vida era a morte, que só depois que morresse saberia a verdade sobre a vida, ele ria, um riso debochado, porque para ele, depois da morte, não haveria mais vida.
Não demorou muito, Beto estava com dez anos, quando por causa de uma queda de bicicleta e a cabeça no meio-fio, acabou morrendo.
O pior, ou melhor, é que foi parar no paraíso, mas quando chegou ao paraíso, encontrou logo na entrada um grande portão de madeira, mas parecia uma porteira de fazenda antiga, mas bem antiga mesmo! No portão da entrada não estava São Pedro, havia um São Bernardo. Sim! Um cachorrão, bem grande!
Beto viu que o lugar era maravilhoso! Havia somente bichos, animais de todas as espécies. Quando se aproximou, o cachorrão rosnou, aliás, falou, (nesta história, animais falam, ok!). Era um interrogatório, tinha uma ficha a ser preenchida. Beto respondeu todas as perguntas, mas indagou:
- Onde estou?
O cão respondeu:
- Acabou de chegar ao paraíso.
Beto riu e protestou – não sabia que no céu tinha animais.
O cachorro, desta vez, foi manso e cauteloso ao dizer-lhe:
- Deus, des-a-cre-di-tou dos homens, por causa da maldade e da falta de fé e, então, aqui, quando os homens chegam, são logo transformados em animais, porque eles não duvidam e nem questionam a existência de Deus.
Beto ficou ressabiado. E o São Bernardo, que não era mesmo São Pedro mandou-lhe entrar logo, senão o diabo viria para buscá-lo. Beto, que não acreditava em nada disso e duvidava de muita coisa, naquela hora, não duvidou de nada e entrou rapidinho no céu, porque por via das dúvidas e, ele tinha muitas, sabia que era melhor o céu do que o inferno.
Quando já tinha caminhado por entre todo aquele verde, cachoeiras, pastagens, campos floridos, riachos, montanhas, etc, percebeu que realmente só havia bichos naquele lugar. Não gostou de ver de longe uma terrível serpente e mais ao longe um leão imenso. Ficou com medo, mas logo se aproximou dele um papagaio:
- Curupacopapaco! Você é o novo morador do paraíso?
Beto fez que sim com a cabeça.
- Já te contaram que quando os homens chegam aqui, logo viram animais?
- Então é verdade? – Beto fez a indagação e começou a rir. Ainda não estava acreditando naquilo tudo.
O papagaio acompanhou sua risada e começou a apresentar os animais mais graduados do céu.
- Tá vendo aquele curió todo emplumado cantarolando?
Beto fez que sim com a cabeça.
- É o Pavarotti. Chegou aqui faz pouco tempo, canta o tempo todo. Tem horas não agüentamos tanta cantoria.
- E aquela lebre astuta, correndo o tempo todo, sabe quem é? – dessa vez Beto nem balançou a cabeça. – Era o Ayrton Senna. Aqui ele nunca pára de correr, vive ganhando todas as corridas, nem os leopardos ganham dele.
Beto fez que ia apontando para um gato peludo, todo branco, quando o papagaio logo foi revelando – aquele é o Gandhi, Mahatma Gandhi. – e continuou – Ele veio parar aqui, porque luta pela não-violência é tão bonzinho!
Beto estava sem palavras! Não estava acreditando em nada, mas e se fosse verdade? Uma coisa era certa! Tinha uma multidão de gatos e outros animais seguindo o gato-Gandhi.
A cada passo na caminhada de Beto ao conhecer o paraíso, mais surpresas e descobertas. O papagaio não era o Zé Carioca, das histórias em quadrinhos, mas dizia-se brasileiro, quando era homem vivente na terra. Beto quis saber quem ele era, mas o papagaio só repetia: você saberá, você saberá!
Quando estavam se aproximando de um imenso mar, de cima de um elevado morro, Beto avistou vários golfinhos, tinha um que mergulhava à frente, liderava o grupo. E, antes que Beto perguntasse quem era, o papagaio foi logo dizendo:
- Lembra daquele político brasileiro que morreu no mar, um acidente de helicóptero? – fez-se um silêncio, para que Beto tentasse se lembrar – É ele, o Ulisses Guimarães. Agora, vive numa paz! Aqui as águas não representam perigo algum para sua vida.
E, foi assim, a cada passo dado, descobertas de pessoas importantes, que agora eram animais irracionais. E, tinha mais... quando Beto viu uma enorme onça pintada, apavorou-se, mas o papagaio revelou-lhe:
- Curupacopapaco! Não tema, você ainda não percebeu que os animais daqui têm uma grande diferença dos animais da terra? Aqui, não há predadores, os animais são todos herbívoros.
Como o garoto poderia imaginar animais ferozes que só se alimentam de vegetais? Fauna e Flora se completando!
Mas, Beto começou a ficar curioso, o que terá sido feito do tio Ronald, que falecera há um ano atrás? E descobriu que seu tio, que adorava futebol, agora era um cavalo selvagem, vivia em bandos, pelas campinas...
A surpresa maior, para Beto, foi quando viu um lobo – sabia que não era o lobo mau que pega crianças pra fazer mingau – devia ter sido um lobo muito esperto, mas também muito importante tamanha sua imponência. E nem precisou tentar adivinhar, porque via que o lobo tinha pele de cordeiro e que estava ajudando, convivendo muito bem com os porquinhos. E sabem que era ele? Martin Luther King. Éééé! Nesta história, líderes do bem continuavam liderando para o bem.
Tinha muitas outras personalidades e Beto se surpreendeu foi quando num recanto florido de pastagens verdejantes, viu lindos pássaros, de todas as espécies, raros ou não, mas que olhavam para a águia que voava mais alto. E o papagaio não resistiu. Essa é Maria, a mãe de Jesus. Aqui, ela é a mãe de todos. Quando algum animal fica triste é ela que do alto, de sua sabedoria, alegra e devolve a harmonia para cada animal, foi dela a idéia de que Deus não mais classificasse os animais em seu reino. E, foi então que Deus acabou com as diferenças. Mesmo os que antes eram carnívoros, roedores e até mesmo insetos, todos se alimentam de plantas. E todos se alimentam o suficiente para manter-se saudável.
Beto queria saber mais, fez muitas perguntas, mas queria descobrir quem tinha sido o papagaio, antes de se tornar um bicho. E o papagaio sobrevoo a cabeça de Beto repetindo e repetindo “ó Terezinha, ó Terezinha...” e não precisou dizer mais nada. Beto sabia que era o tal Chacrinha.
De repente, Beto começou a se transformar em um belo macaco, gênero que o aproximaria da espécie humana, já que era muito incrédulo, rolou de um lado para o outro, por causa da metamorfose e caiu da cama.
- Mãe, mãe! – Beto correu para a cozinha e viu que havia tido um sonho.
O sonho fez Beto começar a acreditar naquilo que não vê, mas pode sentir, a ter fé no sobrenatural, porque afinal, se o sonho o fez imaginar algo tão irreal, era porque a realidade não é tão racional assim, existem razões e emoções, que nem sempre você deve acreditar só no que pode provar e ver, mas deve também acreditar no que o coração sente e não pode pegar.
Depois desse sonho, muitas outras coisas mudaram na vida de Beto, inclusive, nunca mais acreditou que o homem era descendente de macaco...


sábado, 31 de dezembro de 2016

Amor Eletrônico


SILVA, Shirlene Álvares da
Ele era um cara musculoso de 22 anos, com cabelos castanhos; ela era loira deslumbrante em corpete tomara-que-caia branco e calça jeans. O paulista Michel e a goiana Daila se conheceram quando assistiam à queima de fogos de artifício e tomavam água de coco no réveillon de 2010 no Rio de Janeiro. Não foi exatamente amor à primeira vista, mas, depois de reclamarem juntos dos altos impostos que tinham que pagar, a química ficou evidente, ela se mudou para a casa dele em Sampa, e em meados de novembro se casaram.
Parece conto de fadas? Mas, realmente, aconteceu – quer dizer, aconteceu no Second Life, mundo virtual criado pelos usuários da Internet. Michel e Daila são nicks, e o par tem pelo menos 10 anos a mais do que tem no jogo, onde os participantes aparecem com versões em desenho animado deles mesmos – chamado avatars – e se comunicam por meio de mensagens.
Daila e Michel acreditavam mesmo que o amor deles fosse verdadeiro. Do jogo, envolveram-se também através do MSN em mensagens diárias e duradouras. É que Jorge, nome verdadeiro de Michel, trabalhava em uma empresa em São Paulo, que cuidava de toda a produção de softwares de uma rede de supermercados, então, ficava horas em frente ao computador. E Lana, nome real de Daila, trabalhava em uma produtora de propagandas em Goiânia.
Eles começaram a viver um romance cibernético, os sentimentos de um pelo outro era intenso e eles se sentiam apaixonados. Teclavam todos os dias, quando acordavam, ao meio dia e no fim da tarde. Ao anoitecer, ela sempre deixava recadinhos de amor off line: “Eu te amo!”, “Estou apaixonada!”, “I love you!, “Sou louca por você!”, isto porque neste horário ele alegava que estaria na faculdade fazendo pesquisas com novos programas na área de informática.
As conversas entre os dois se intensificaram e cada um contava ao outro sobre tudo: trabalho, rotina diária, pensamentos e sonhos. Começaram a planejar como seriam seus encontros além do mundo virtual, já que ela morava em Goiânia e ele em São Paulo. A distância até os separavam de corpos, mas os pensamentos...
Nunca usaram webcam, utilizavam o skype e o MSN para conversar pelo microfone e Lana estava encantada pela voz de Jorge e vice-versa. Ela imaginava-o como na foto do perfil, um tipo entre Luciano Szafir e Thiago Lacerda.
Após três meses de relacionamento diário, Jorge deu uma notícia de presente a Lana:
- Olha, meu amor, tem um Congresso em Brasília de Produção de Softwares e será daqui 15 dias, como você está aí perto, vamos nos encontrar por lá!?
- Sério, meu bem? Ah, eu irei sim! Esta é nossa chance de nos conhecermos pessoalmente!
- É vamos sair do mundo virtual...
O encontro aconteceria em 15 dias e Lana começou a premeditar como seria o momento, pois em seu perfil havia colocado a foto de uma modelo, linda e esguia. E, na verdade, ela era gordinha, não era acadêmica do curso de publicidade como falara para o amado, trabalhava com vendas. Tinha cabelos ondulados e castanhos, bem diferente da loira fictícia.
A ansiedade tomou conta de seus dias. Sempre que falava com Jorge, mantinha-se muda e distante, o medo do encontro real a atormentava. Eis que teve uma ideia, pedir à prima Ângela que morava em Brasíla e era loira, como havia descrito em seu perfil, para que fosse em seu lugar ao encontro:
- Mas, Ângela é só um encontro. Você vai em meu lugar e depois continuo teclando com ele pelo msn.
- Lana, você é doida e como vou conversar com ele, se nem sei do que vocês conversavam.
Como Ângela era segura e, além de tudo aventureira, acabou aceitando, já que o cara era um gato, valia o esforço!
Lana disse que enviaria os arquivos de toda conversa, durante aqueles três meses, por e-mail, para que a prima lesse e pudesse situar-se sobre o relacionamento. Disse isso e se retraiu:
- Não. Vou fazer melhor: vou uns dias antes para sua casa e conto sobre tudo que conversamos, combinado?
- Combinado.
Lana achou melhor fazer assim, pois veio à mente as conversas íntimas dos dois. Como deixaria a prima ter conhecimento de tudo? De todas as declarações como as que Jorge fizera, seria exposição demais!
Em Brasília, combinaram tudo, inclusive a explicação que daria a Jorge o fato de não ser a mesma pessoa da foto. Achava que ele a perdoaria, pois a prima era um avião! Enquanto Lana tinha seus 31 anos, Ângela se adequava a idade de 22 anos, descrita por ela em seu perfil. Feito isto, a prima compareceria em seu lugar e tudo resolvido.
Jorge chegou à capital federal numa sexta, por volta das 22h. Ao instalar-se no hotel, teclou horas com Lana. Ele também estava excitado com o encontro. Lana postou a foto da prima no lugar da anterior e contou a verdade (entre aspas)!
- Tudo bem, minha linda! Tá perdoada! Eu também tenho algo a te dizer, mas prefiro pessoalmente.
Naquela noite nenhum dos três dormiram, pois até a Ângela estava ansiosa, parecia que ia fazer parte da cena de uma novela.
A hora do encontro chegou, era meio dia. O local escolhido: o restaurante do hotel em que ele estava hospedado. O combinado: ambos estariam de jeans e camiseta branca (tipo Hering).
Como contar o que aconteceu? Lana sentou-se numa mesa escondida ao fundo e viu o seu amor virtual entrar e sentar-se. Suspirou com a imagem projetada à sua frente, ele era realmente ele! O mesmo da foto... corpo, cabelo, sorriso! Quando a prima entrou, Lana não acreditou, pois se sentia na pele e n’alma de Ângela.
Então, viu no rosto de Jorge um sorriso de quem vislumbrava com o que via. Jorge e Ângela se entreolharam, abraçaram-se e se entregaram em um beijo ardente. Naquele instante, a moça desmoronou em pranto, cálido e de arrependimento pela situação que criara. Queria estar sendo beijada no lugar da prima. Jorge aparentava seus 30 anos era tudo que projetara em suas conversas, mas era mais que isso, era afetuoso, o que ela percebeu na forma como tratava Ângela.
Lana não teve forças para manter-se no local, quando saiu, Ângela viu-a partir, mas, ficou ali enebriada pela companhia de Jorge. Aquilo sim! Foi amor à primeira vista.
Jorge fez questão de dizer logo o que o afligia, segurando as mãos de Ângela contou-lhe a verdade:
- Meu amor, o que tenho que revelar a você é muito chato, porque eu omiti de você que sou casado, eu tenho um casal de filhos. Mas, quero que saiba que estou apaixonado, vou separar de minha esposa pra ficarmos juntos.
Ele ia falando e Ângela mudou todo seu semblante pensando na prima e nela mesma, que já estava apaixonada.
- Por que mentiu pra mim? E agora? Como vou ficar sem você?
- Mas vou me separar e te levar pra Sampa. Lá arrumarei um emprego pra você e ficaremos juntos!
Houve um silêncio! O garçom trouxe a conta e subiram pro quarto dele.
Passaram a tarde juntos!
Ângela aproveitou! Estava fascinada! sentiu um misto de culpa e também de felicidade, porque sentiu o calor da paixão invadir todo seu corpo, não sabia como explicaria tudo à prima, mas queria viver a tórrida paixão com Jorge. Afinal, quem está na chuva é pra se molhar e quem mandou a prima envolvê-la naquela história?
Ela não revelou a verdade a Jorge, deixou que Lana o fizesse na esperança de que reencontraria o amado com o aval da prima.
Dois dias depois, após tomar conhecimento dos fatos, Lana criou coragem, ficou on line para Jorge no MSN e contou-lhe toda verdade. Mostrou fotos reais dela, da prima e até deu seu endereço do Orkut para que ele conhecesse todo seu perfil real. Jorge ficou frustrado e deletou-a. Não conseguiu ter contato com Ângela, que ficou em sua memória.
E o que restou a Lana foi escrever em seu status no Second Life:
Relacionamento: sem namorado!
21/04/2011

Na fazenda, em Jaraguá

Sobre mim

Eu cheia de mistérios
trancada nas palavras
fechadas no livro
quando foleio as páginas
há nelas
uma multiplicidade de mim
com a euforia de viver
de encontrar o amanhã
e descobrir que o futuro
é só um rascunho
passado a limpo...
E O FUTURO É ASSIM: concretizar sonhos planejados... então, que nos próximos dias, semanas, meses... todos meus amigos possam realizar seus planos rascunhados no pensamento... a vida não muda em horas, ou pela mudança automática do ponteiro no relógio, pra ter movimento a vida, precisamos de ATITUDE.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Por Cintia Duarte Montilla



Esconde esse absorvente
Essas espinhas
Arranca esses pelos
Da um jeito nesse seu cabelo duro
Mal cuidada

Porca

Feche esse sorriso
Sua mãe não te ensinou 
Sobre o perigo de andar sorrindo na rua?
Abaixa essa cabeça
Para de encarar
Você esta chamando atenção
Assim vão achar que você esta dando mole

Delicia
Gostosa
Oh la em casa
Fecha essa boca e não reclama
Saiu de casa de saia curta
Camisa decotada
Maquiagem
Sem um homem
Tem que aguentar

Como assim não sabe cozinhar?
Você é mulher
Tem que cuidar do lar
Como assim não quer engravidar?
Você é mulher
Tem que engravidar

Faculdade? Viagem?
Mas você é mãe
Tem que cuidar
Abriu as pernas, agora não adianta
Largar na creche 
Irresponsável

Mãe solteira? 
O pai foi embora? 
Não sabe quem é o pai?
Transou sem camisinha
Vai ter que aguentar
Vadia

Esse roxo ai
Tenho certeza que apanhou 
Que teu marido te bateu
Mas você mereceu
Provocou ele
Você sabe que não pode se levantar
Mulher tem que ser submissa
O homem é que comanda o lar

Ah, mas que criança linda
É uma menina? 
Toma aqui esse vestidinho rosa
Essa coberta de florzinhas
Pinta o quarto de rosa
Um rosa bem bonito
Porquê mulher é monocromática durante a infância

Ih, chegou a menarca
Essa vai dar trabalho
Ensina pra ela a se valorizar
Mulher tem que se dar ao respeito
Fala pra ela não deixar ninguém ver esse absorvente
Esse sangue sujo

Vai ter que começar a usar sutiã
Os mamilos estão aparecendo pela camisa
Que coisa horrível
Adolescente descuidada
A mãe dessa ai não ensinou nada

Foi estuprada?
Morreu no processo? 
Devia estar pedindo
Sem sutiã, andava sozinha
Aquele batom vermelho
Aquela bunda enorme
Não sabe que menina tem que ficar em casa?
Deu sorte pro azar

Não foi educada
A mãe era solteira
O pai estava é certo de ir embora
Se ela era assim com a filha, imagine com o marido

Não foi respeitada
Opressão? 
Imagine

Olha lá a mãe dela
Na beira do caixão 
Olhando pro rosto da filha
Sem cor, sem vida
Um futuro morto antes mesmo do nascimento
Filha de mãe solteira
Sem pai, sem respeito

Morreu tão jovem
Aos 17
Uma menina tão linda
Maldita sociedade
Espero que a mãe dela aprenda a lição
E não tenha mais filhos

Suicídio?
Mas ela poderia ter começado uma vida nova
Agora que tinha perdido a filha
Poderia terminar a faculdade
Arrumar um emprego
Mas era uma fraca
Era mulher
O destino, a vida, as possibilidades
As pessoas
Cavaram a cova e jogaram ela lá dentro

Vitimismo? Preconceito?
Abuso? Agressão?
Cala essa boca e vai lavar uma louça
Você tem uma delegacia só sua
Tem seus direitos
Não luta na vida
(Mas luta na rua)
Não morre na guerra
(Mas morre em casa)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Fizemos amor

O unicórnio voador que sempre sonhei,
com patas aladas e dorso encantado,
voando em círculos de infinita dimensão,
vislumbrei na retina de seus olhos,
no absoluto momento de emoção.

Meu corpo sobre seu corpo,
numa sinfonia de movimentos,
garimpou em nossos sentimentos,
um misto de desejo e razão.

Você deusa encantada,
eu, entidade deusada.
Nos misturamos,
num universo de tesão.

Cabotinos de todas as realidades,
colhemos em nossos corpos o êxtase da amplidão.
De suas pálpebras cerradas,
como cancela encantada,
unicórneos, borboletas e estrelas,
invadiram minha existência.

De meus olhos, como ponte levadiça,
unindo o absoluto e o impávido,
a absoluta intercepção de todos os mundos.
Seu unicórnio perpassou minha ponte,
cruzou se nossos mundos.
Instantaneamente para a eternidade,
Amei você

Semi Gidrão