quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Escreva e Aconteça - Raquel, Coragem e Determinação

Coautores Coordenadores: Júnior, André e Álvares, Shirlene Capítulo 8 - Quando a verdade vem à tona A doença de dona Luiza fez com que Henrique se envolvesse cada vez mais com a família Silva, fortalecendo, assim, o laço de amizade entre ele e Raquel. Na primeira semana do mês de janeiro, dona Luiza teve que se submeter a uma nova sessão de quimioterapia. No hospital, recebeu várias visitas, inclusive de dona Rita e de Rosana. Henrique também foi visitá-la e, na portaria do hospital, encontrou-se com Ana, que já estava indo embora. Cumprimentou-a com um beijo na face e perguntou-lhe por Raquel. A amiga disse que ela havia saído para lanchar com o namorado. Enquanto esperava, Henrique ficou por ali, batendo papo com a garota. Ele demonstrava um certo interesse por Ana, achava-a atenciosa e meiga com os amigos. Ela lhe disse que estava estudando para o vestibular, desde o primeiro ano do ensino médio, e falou de sua aptidão para o desenho. - Tenho bastante livros dessa área que poderão te interessar. Por que não passa em minha casa qualquer dia desses para dar uma olhada? Posso emprestar-lhe. - Boa idéia, prometo que logo te farei uma visita. Você também se interessa por desenho? - Não para seguir carreira. Serei concorrente do PC no vestibular de medicina da UFG. Raquel e Rubens chegaram, e Ana despediu-se de Henrique, prometendo-lhe que em breve passaria em sua casa. Henrique subiu com os amigos até o quarto de dona Luiza. - Meu pai ainda não contou a minha mãe sobre a minha paternidade. Ele não teve coragem. - Mas ele se comprometeu que lhe contaria logo depois do ano novo. Se deixar passar muito tempo, sua mãe ficará mais magoada. - Ele sabe disso. A Marina já sabe, contei tudo a ela. - Que bom! Se não contarem o quanto antes, será pior para todos. Eu senti que sua mãe é compreensiva. - Isso é verdade, Raquel! Ao chegarem ao quarto, Henrique surpreendeu-se ao encontrar sua mãe e a tia Rosana: - Não sabia que vocês estavam aqui! - Boa tarde! – Raquel cumprimentou-as. Doutor Renato também entrou no quarto, mas dona Luiza tinha acabado de dormir. Os medicamentos a deixavam muito sonolenta. Ao ver Henrique, o médico lhe disse: - Henrique, você não pôde ser o doador de dona Luiza, mas hoje entrou em contato conosco um receptor, cadastrado no Banco de Medula, com o qual você é compatível. Ele mora em São Paulo e gostaria de falar-lhe sobre a possibilidade de você ser seu doador. - Nossa! Mas será que devo, mãe!? – Henrique se dirigiu à dona Rita. - Por que não, meu filho? Dona Rita decidiu-se que também faria seu cadastro no Banco de Medula. Procuraria o doutor Renato, ou o doutor Marcílio para maiores informações. Seu tipo sanguíneo era o mesmo de Henrique e de dona Luiza. Quem sabe poderia ter uma chance de salvá-la? Mas, como não queria causar expectativas, faria tudo em silêncio. No dia seguinte, sem contar nada sobre sua decisão, foi até o hospital, conversar com o doutor Renato. Marcou os exames para a manhã seguinte, pois deveria estar em jejum. Enquanto isso, José Paulo tentava provocar uma situação para contar sobre o resultado do exame de DNA à esposa. Ä noite, Henrique e Marina, a convite de Raquel, foram a uma reunião na casa de Paulo César, em que decidiriam o rumo da campanha em favor de dona Luiza. Discutiram a nova tentativa para encontrar doadores compatíveis. Decidiram que deveriam deixar registrado, nos sites, o tipo de sangue da receptora. Marina também digitou um texto que seria enviado para todos os Orkuts dos que estavam presentes: “Minha mãe Luiza Silva é portadora de Leucemia e precisa de um transplante. Procuro um doador de medula óssea cujo tipo sanguíneo seja O+. Se você tem mais de 18 anos e quer salvar uma vida, procure-me. Meu nome é Raquel, moro em Goiânia, meu e-mail é raquel.silva@gmail.com. Entre em contato comigo através da comunidade no Orkut PELA VIDA DE MINHA MÃE ou pelo blog CÂNCER MATA. No site QUEM PROCURA, ACHA há um perfil dela. Ajude-nos!. Raquel” Todos enviaram scraps para a página de endereços dos amigos, e dos amigos dos amigos. Isso significava uma lista de mais de 10 mil pessoas. Quando entraram no site QUEM PROCURA, ACHA tiveram uma surpresa: uma ex-colega de colégio entrara no site e deixara uma mensagem para Raquel, dizendo que na escola onde ela estudara, em Brasília, mais de 48 pessoas estavam se cadastrando no Banco de medula, para ajudarem sua mãe. Raquel se emocionou, Rubens a abraçou e todos resolveram dar uma pausa nos trabalhos. Paulo César e Carolina foram até a cozinha providenciar um lanche. Ele aproveitou a oportunidade para dizer-lhe que estava interessado por ela e, num ímpeto, abraçou-a. Ela sorriu e perguntou: - Sério!? - Sim. Há algum tempo venho te observando e sinto que estou gostando de você. No momento em que os dois se beijariam, Ana entrou na cozinha: - Este suco fica ou não fica pronto? Enquanto isso, na casa dos Albuquerque, José Paulo aproveitou a ausência dos filhos para conversar com Rita. - Rita, preciso falar com você. - Eu também; hoje estive no hospital visitando Luiza. – disse Rita. - Ah, é? E como ela está? - Não está nada bem! Os remédios são fortes e a debilitam demais. Mas e você, o que gostaria de falar comigo? José Paulo desligou a TV e encaminhou-se ao sofá, onde Rita estava sentada. - Rita, tenho algo muito sério a lhe dizer. Quero aproveitar a saída dos meninos, pois a história é longa. - Que história é essa? Quando você fala assim, é porque o assunto é realmente sério! Marido e mulher encaminharam-se até o quarto e José Paulo sentou-se à beira da cama, colocou as mãos sobre os joelhos, olhou para Rita e disse: - Sente-se aqui ao meu lado, e segure as minhas mãos! Rita sentou-se, segurou as mãos de José Paulo que, olhando nos olhos da esposa, exclamou: - Quero que saiba de uma coisa: você é a única mulher que amei e que amarei pelo resto de minha vida. Você é tudo que desejei, a mulher que amo e que sempre esteve do meu lado. Mas, preciso lhe contar sobre algo que aconteceu há muitos anos, uma história que tem me tirado o sono. Desde que Raquel esteve aqui não durmo direito. - O que tem a Raquel a ver com o que vai me contar? - Calma. Escute-me. Eu lhe traí no início do nosso casamento, eu era um rapaz muito jovem, não tinha ideia da loucura que eu estava cometendo. Foi fraqueza minha. Você havia viajado com a Marina para uma visita a seus familiares e eu fiquei só. Lembra-se? - Fale logo! – disse Rita com voz alterada. - Eu fiquei só e acabei assediando a Luiza. Ela não teve culpa. Depois, quando vocês voltaram é que percebi o quanto fui leviano. Notei o quanto eu estava errado e que deveria ter respeitado sua ausência. Hoje, sei que você é a mulher da minha vida. Faço tudo para preservar nosso casamento. - Eu não acredito! Você me enganou!? - Rita, por favor, escute. Eu errei, mas foi a única vez que te trai. - Foi só eu virar as costas e você me apunhalou? Você é um cretino! Um cínico! - Não é bem assim. Sei que foi uma atitude inconsequente, irresponsável de minha parte, mas naquela época eu não tinha maturidade para pensar assim. Fui levado pela atração e não resisti. - Vocês homens são todos iguais! Eu dediquei meu amor a você esses anos todos. - Rita, eu já te disse, foi um ato impensado. Você sabe que sou fiel. E, tem mais, logo que vocês chegaram da viagem, ela pediu demissão sem justificativas. - Também pudera! Era o mínimo que ela deveria fazer. - Rita, acalme-se e me ouça. Quando Raquel me procurou para dizer que eu era o pai de Henrique fiquei surpreso, mas decidi contar tudo a ele e, juntos decidimos fazer o teste de DNA. – Levando a mão ao bolso, retirou o envelope e O entregou à esposa. – Está aqui o resultado. Em prantos, Rita abriu o envelope e leu: - Então o filho, que sempre tive como meu, é filho seu e da empregada? - Eu não sabia da verdade, juro que não sabia! - Deixe-me só! – Disse Rita pedindo a José Paulo que se retirasse do quarto. Pela primeira vez, em mais de vinte anos de casamento, dormiriam em quartos separados. José Paulo ficou a esperar pelos filhos na sala de estar. Quando chegaram, o pai contou-lhes que havia dito a verdade à esposa. Marina e Henrique queriam falar com a mãe, mas José Paulo aconselhou-os a não perturbá-la. Rita chorou a noite toda. A traição do marido, mesmo que há dezoito anos, transpassou-lhe a alma como um instrumento cortante, desestruturando uma vida inteira. Ela, que criara o filho como sendo seu, agora tinha a certeza de que criara o filho do marido. Acreditava que ele desconhecia a verdade até o momento, mas não admitia a traição. Pela manhã, comunicou à família que gostaria de passar o fim de semana na fazenda de um tio, no interior do Estado. Queria ficar só. - Mãe, eu amo você! Isso não muda nada para mim. – Henrique abraçou a mãe confortando-a. - Meu filho, apesar de ser fruto de uma traição, você é meu filho querido, e este sentimento não vai mudar. Porém, em relação a atitude de seu pai, preciso esquecer para sentir que perdoei. E o perdão é um ato que requer tempo e reflexão. Preciso ficar só, pensar em tudo e colocar meus pensamentos em ordem. Acho que tenho este direito, não? Os filhos concordaram e José Paulo também não se manifestou contrário, pois sabia o quanto a esposa gostava de ficar só para pensar e fazer as suas orações, antes de tomar qualquer decisão. Durante todo o fim de semana José Paulo não saiu de casa. Henrique e Marina aproximaram-se ainda mais de Raquel e de seus amigos. No domingo, foram almoçar com dona Luiza e Henrique lhe contou que o pai já havia revelado a verdade à mãe. Ela sentiu um certo alívio. O passado estava esclarecido. Na sua cabeça, agora poderia morrer em paz, pois já havia cumprido a sua missão: além de ter dado uma boa educação a sua filha, conseguiu revelar uma verdade que ocultara por muitos anos. Mas o que ela não sabia era que o alívio que sentia poderia ser o caminho para a sua cura. Luiza estava reagindo melhor ao tratamento.

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